Um evento com a presença do cientista político e presidente da ONG Stand With Us, André Lajst, ocorreria nesta quinta-feira, 13, na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), mas teve de ser adiado por motivos de segurança. Lajst é judeu e faria uma palestra com discussões sobre o processo de paz no conflito entre palestinos e israelenses.
O centro acadêmico XI de Agosto, no entanto, havia convocado um protesto pelas redes sociais no início da semana, declarando “repúdio à presença de sionistas nas Arcadas”. Dizia ainda que a instituição não podia “servir de palco para difusão de discursos que legitimam a ocupação, o colonialismo e a limpeza étnica”.
A presidência do XI de Agosto foi procurada pela reportagem na quarta e na quinta-feira, mas não respondeu.
Uma aluna ligada ao CA, que era estagiária do escritório Machado Meyer, foi até demitida por causa da publicação nas redes. Ao Estadão, o escritório disse pautar sua atuação pelo “respeito”.
Segundo a organizadora do evento e professora de Direito Internacional da faculdade do Largo de São Francisco, Maristela Basso, a palestra foi transferida para segunda-feira, dia 17, pelo “risco de agressão”. Nesta quinta, são realizadas na faculdade as eleições para a presidência do centro acadêmico e ela considerou que haveria mais chances de tumulto.
“Há uma falta de liberdade de expressão acadêmica em alguns assuntos, quando eles mesmos falam de democracia”, disse Lajst ao Estadão. O especialista considerou a publicação do centro acadêmico no Instagram como “autoritária e totalitária”. “É uma palestra acadêmica, não ativista. Mas só a presença de uma pessoa que apoia Israel já incomoda.”
No post, que foi apagado nesta quinta, o centro convocava toda a comunidade da faculdade para protestar contra “um representante de uma organização que atua na defesa da normatização do regime do apartheid e das práticas genocidas do Estado de Israel contra o povo palestino”.

Maristela diz que, depois do protesto, recebeu apoio de pais de alunos e de estudantes judeus, além de associações judaicas e da direção da São Francisco para que não cancelasse o evento.
“Ainda temo que eles façam não só barulho, mas também piquetes e partam para a agressão”, afirmou, sobre a nova data. “Mas cancelar seria admitir que a universidade não está aberta a ouvir, não está aberta à diversidade.”
André Lajst já foi vítima de protestos em duas ocasiões na Universidade Federal do Amazonas em 2018 e 2023 – em uma delas teve de sair escoltado pela Polícia Federal. Ele também já teve eventos cancelados por risco de agressão.
O especialista tem segurança particular, mas diz que espera que a USP garanta que o evento ocorra sem tumulto. A direção da Faculdade de Direito da USP foi procurada e não respondeu à reportagem.

Professor de Filosofia do Direito, Ari Solon, que é judeu, afirma discordar do que ele entende como um “post racista” do centro acadêmico. Ele considera, porém, que seria melhor a faculdade ter organizado um evento com vários pontos de vista sobre o assunto.
“Sou a favor que ele seja recebido com cartazes de protesto, mas que se respeite o direito à palavra, defendo a importância do diálogo. Mas a professora que organiza o evento deveria exigir que as posições contrárias ao direito internacional fossem claramente questionadas e situadas dentro dos valores que regulam a convivência entre povos”, disse ao Estadão.
O Machado Meyer Advogados informou que a estagiária foi desligada de suas funções, mas não divulgou o nome da estudante. “Desde sua fundação, o escritório pauta sua atuação pela integridade, pelo respeito e pela transparência. Reiteramos nosso compromisso com a promoção de um ambiente profissional saudável, inclusivo e construtivo, baseado no diálogo aberto e no respeito mútuo”, afirmou, em nota.