As principais universidades públicas da Coreia do Sul passaram a rejeitar candidatos em vestibulares com histórico de violência escolar, como bullying. Levantamento do parlamento sul-coreano mostra que seis das dez principais instituições nacionais recusaram 45 candidatos no processo seletivo de 2025 por registros de agressão e conflitos durante a educação básica. Outras faculdades, como as que formam professores, começaram a desclassificar automaticamente alunos com esse perfil.
A partir de 2026, todas as universidades do país serão obrigadas a considerar registros de violência escolar nos processos de admissão.
No Brasil, uma nova lei foi aprovada em 2024, tornando bullying um crime, com multa para quem praticá-lo. O cyberbullying foi incluído na legislação, com pena de dois a quatro anos de prisão. Até então, o Brasil tinha outra lei, de 2015, que apenas definia o bullying e exigia prevenção pelas escolas, mas sem prever punições.
Especialistas acreditam que a mudança no Brasil trouxe não só uma mensagem mais forte sobre a seriedade da agressão, como um estímulo para ações na Justiça contra escolas e famílias dos agressores. Como mostrou o Estadão, dados dos tribunais do País mostram que cresceram mais de 100 vezes as ações que envolvem bullying entre 2020 e 2025.
Tabulação feita pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) indica que em 2020 havia dois casos nos tribunais do Brasil ligados a bullying, violência e discriminação em escolas. O número cresceu ano a ano e em 2024 foram 280 ações. Até julho de 2025, havia registro de 211. A maioria está em São Paulo e no Rio Grande do Sul.

Classificação para violência cometida no ambiente escolar
Entre os alunos recusados na Coreia, segundo reportagem do veículo The Korean Herald, estão dois candidatos à Universidade Nacional de Seul, a mais concorrida do país, e 22 à Universidade Nacional de Kyungpook.
No país, há uma classificação em níveis para a violência cometida no ambiente escolar, que vai do nível 1 (exige um pedido formal de desculpas) ao nível 9 (leva à expulsão).
No passado, infrações mais leves costumavam ser resolvidas internamente, com mediação entre professores, alunos e famílias. Hoje, no entanto, sanções a partir do nível 6 passam obrigatoriamente a constar no histórico escolar permanente, e cabe às universidades decidir como esse histórico será avaliado.
As famílias e as escolas muitas vezes, porém, têm dificuldades para diferenciar bullying de outros conflitos. Definir exatamente o bullying é importante porque as formas de prevenir e de agir são específicas para serem efetivas.
O bullying apresenta cinco características principais:
- atos repetidos contra um ou mais constantes alvos (3 vezes ou mais na semana);
- ocorre entre pares (quando é professor-aluno é assédio moral);
- há intenção do(s) autor(es) em ferir;
- há um alvo fácil, mais frágil;
- há público que prestigia agressões (o bullying é escondido dos adultos, mas nunca dos pares).
Ações para prevenção do bullying sugeridas por especialistas:
- Equipes de ajuda: alunos escolhidos pelos próprios colegas formados para identificar problemas, acolher e cuidar dos próprios alunos. Elas são uma forma de protagonismo;
- Organização de assembleias ou rodas de diálogo: alunos apontam dificuldades da convivência, refletem, discutem e pensam em soluções para seus problemas;
- Mediação de conflitos e uso de linguagem descritiva: professores formados para não intervir com violência, gritos, castigos e, sim, com a intenção de reparar o erro e aprendizagem por meio dos problemas;
- Preocupação compartilhada: metodologia para intervir em casos de bullying, com escuta ativa da vítima e do agressor. Depois, os envolvidos assumem compromisso coletivo de cuidado e reparação.
“Violência escolar é uma quebra de confiança social”
Na Coreia, a Universidade Nacional de Kyungpook adotou uma das políticas mais duras do país: desconto de 10 pontos para punições dos níveis 1 a 3; 50 pontos para os níveis 4 a 7; e 150 pontos para casos de transferência forçada ou expulsão. Segundo a instituição afirmou ao The Korean Herald, todos os 22 candidatos rejeitados foram eliminados por não conseguirem compensar a pontuação negativa.
“Não se trata apenas de má conduta individual. Violência escolar é uma quebra de confiança social”, afirmou a universidade em nota.
Dez universidades nacionais de formação de professores anunciaram que, a partir do próximo ano, qualquer candidato com registro de violência escolar será automaticamente desclassificado, independentemente da gravidade. Faculdades de Medicina e outras áreas também avaliam adotar medidas semelhantes.
A mudança reflete uma transformação cultural mais ampla. Até meados dos anos 2000, casos de bullying e agressões entre estudantes eram frequentemente tratados como conflitos privados ou minimizados como “coisas de crianças”. Mas uma sequência de casos de grande repercussão, incluindo suicídios associados ao bullying, denúncias de celebridades, o crescimento do assédio digital, trouxe o tema para o centro do debate público.
As consequências para os estudantes são significativas. Registros de violência escolar podem permanecer nos documentos oficiais por até dois anos após a graduação — ou de forma permanente, em casos de expulsão — afetando não apenas o acesso à universidade, mas também concursos públicos e oportunidades no setor privado.