Cientista brasileiro que pesquisa envelhecimento em Yale perde bolsas sob gestão Trump: ‘Destrutivo’

Um dos primeiros professores brasileiros da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, o médico e neurocientista Marcelo Dietrich, que estuda como barrar o envelhecimento, pode ter suas pesquisas completamente paralisadas por causa dos cortes em financiamentos feitos pelo governo de Donald Trump. Este ano, ele já não conseguiu verbas federais para dois de seus projetos – que estudam o desenvolvimento cerebral de crianças e de adolescentes – teve de dispensar funcionários em seu laboratório e passou a usar uma espécie de poupança que a universidade oferece para imprevistos.

“O efeito foi muito destrutivo. Se esse período se prolongar por muito tempo, vai ter professor perdendo 100% do orçamento”, diz Dietrich, que é do Rio Grande do Sul e está em Yale há quase 20 anos, no Estado americano de Connecticut. Ele afirma que este é o pior momento que presenciou na ciência do país. “O nível de incerteza está muito alto, isso gera um estresse coletivo. O sistema está em xeque agora, porque a gente não sabe como vai ser o futuro.”

O governo federal fez mudanças na forma de financiar bolsas pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), que são parte do Departamento de Saúde do governo americano e responsáveis por boa parte dos recursos usados na ciência no mundo todo.

O médico e neurocientista brasileiro Marcelo Dietrich, da Universidade de Yale
O médico e neurocientista brasileiro Marcelo Dietrich, da Universidade de Yale

“Qualquer tratamento que qualquer pessoa faz hoje teve a mão do NIH, financiando alguma parte, ou a descoberta ou o teste ou o primeiro ensaio clínico. Todo o avanço biomédico nesse período pós-guerra está ligado ao NIH”, explica. O NIH financia pesquisas iniciais sem retorno comercial imediato, mas essenciais como base para futuras inovações, como as que mapeiam mecanismos de doença.

Historicamente, esse apoio levou a descobertas como o papel do colesterol nas doenças cardíacas e os medicamentos para tratar o câncer e a diabetes. “Essa é a grande potência e a razão pela qual pessoas como eu vieram para os EUA, sempre foi a vanguarda da ciência, com muitos recursos e aceite de estrangeiros”, conta o brasileiro.

Sede do National Institutes of Health (NIH), órgão dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA
Sede do National Institutes of Health (NIH), órgão dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA

Diferentemente do que foi feito durante décadas, o NIH passou a não mais escalonar o pagamento das bolsas durante os anos de pesquisa em 2025. Os projetos aprovados passaram a receber toda a verba necessária para o período de pesquisa de uma vez só. O argumento do governo é de dar mais flexibilidade ao orçamento do órgão.

Procurado pelo Estadão, o NIH respondeu que não poderia dar informações específicas sobre a situação do pesquisador brasileiro, mas que o modelo continuará em 2026 com o objetivo de “facilitar uma gestão mais eficiente dos recursos ao longo de vários anos”. ”Oferecer ao beneficiário o financiamento de todos os anos do projeto desde o início aumentará a flexibilidade orçamentária do NIH, ao deixar de comprometer grandes parcelas da dotação anual com a continuidade de projetos de pesquisa iniciados em anos anteriores.”

No caso de uma bolsa de US$ 1 milhão, por exemplo, que normalmente seria paga ao longo de quatro anos com US$ 250 mil anualmente, o valor total agora é dado no primeiro ano. Como o orçamento a ser distribuído não aumentou, a mudança leva a uma quantidade menor de projetos financiados anualmente.

‘Fiquei em um limbo’

Segundo Dietrich, a estimativa é de que anteriormente 15% das pesquisas submetidas ao NIH eram aprovadas para receber recursos, agora esse índice caiu para 4%. “A realidade aqui já era muito competitiva porque são os maiores pesquisadores do mundo, agora está pior.”

Por causa disso, desde junho, o pesquisador não conseguiu mais verbas para seus dois projetos principais, que recebiam cerca de US$ 500 mil cada, por ano, e precisavam ter as bolsas renovadas. “Eu fiquei em um limbo, não ganhei a bolsa agora, eu não vou ganhar até 2026. Se houver uma boa revisão, eu só vou ganhar o dinheiro em julho do ano que vem, no melhor caso possível”, afirma.

Um deles estuda a neurobiologia do apego, ou seja, o que ocorre no cérebro da criança a partir do vínculo que ela tem com cuidador e qual o efeito deletério quando isso se quebra. A outra pesquisa estuda o desenvolvimento cerebral do adolescente quando ele passa a transferir a relação que ele tinha com os pais para uma relação com amigos.

O cientista terá ainda que paralisar uma pesquisa totalmente inovadora, que estuda como pausar o envelhecimento das células, analisando o organismo do tatu; isso porque o animal consegue paralisar o desenvolvimento de um embrião por até quatro meses. “O envelhecimento é caracterizado pelo declínio progressivo da função celular e pelo aumento da vulnerabilidade a doenças. Em vez de apenas mitigar os efeitos do envelhecimento, uma abordagem transformadora seria deter, ou até reverter, o próprio processo de envelhecimento celular”, diz a explicação do projeto no site de Yale.

Por ser uma pesquisa de alto risco, ela não recebia dinheiro de entidades de fomento públicas, mas usava uma verba extra que Dietrich recebeu da universidade – chamada de enxoval – que agora precisa ser transferida para o dia a dia. Cerca de 70% dos custos do laboratório vão para pagamento de cientistas, muitos deles também brasileiros, que trabalham nas pesquisas, além da maior parte do próprio salário de professor.

Dos nove pesquisadores que trabalhavam com ele, agora o pesquisador ficou com apenas cinco. As políticas de Trump também já vêm impactando pesquisadores brasileiros em outras áreas, O governo determinou o corte de bolsas que tinham como critério a diversidade e ainda para estudos em áreas como DST/Aids e vacinas.

Com o dinheiro do chamado enxoval acabando, o pesquisador não terá mais recursos para continuar seus trabalhos. Agora, ele diz que está tentando encontrar doadores privados. “A última opção é buscar outro emprego, tentar ser contratado por algum outro lugar. Quando é contratado por uma outra universidade, eles te dão um enxoval novamente e aí você sobrevive.”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima