Pesquisadores do Einstein Hospital Israelita, localizado em São Paulo, já tinham ajudado o mundo da cardiologia a resolver um dilema: manter ou não o uso de aspirina para evitar coágulos nas artérias em pacientes que sofreram um infarto? A resposta, um sim, teve destaque na edição passada da reunião anual da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC, na sigla em inglês). Agora, o grupo deu mais um passo sobre a escolha dessa abordagem e constatou que o medicamento também deve ser mantido em pacientes submetidos ao procedimento de angioplastia coronária com implante de stent, método para desobstrução das artérias, após a avaliação caso a caso.
O AAS, como também é conhecido, tem a função de impedir que coágulos se formem, causando obstruções que abrem portas para infartos. Apesar de ajudar nesse ponto crítico, o medicamento desencadeia sangramentos que podem ser perigosos para os pacientes.
É por isso que, até então, os médicos não sabiam como tomar essa decisão de forma mais assertiva. O estudo NEO-MINDSET alcançou seu objetivo e não parou por aí. Avançou explorando os impactos para pessoas submetidas a angioplastias cardíacas, inclusive com quadros mais complicados, como pacientes com obstruções em mais de uma artéria, com necessidade de implantação de mais de um stent e obstruções mais graves.
O estudo foi realizado com 3.408 pacientes, dos quais 791 foram classificados como casos complexos. No tratamento vigente, além de aspirina (o ácido acetilsalicílico ou AAS), pessoas que infartaram são medicadas com um antiplaquetário por, ao menos, um ano. Depois, seguem com o AAS.
O grupo analisou dois grupos de pessoas que sofreram infarto e foram submetidas ao procedimento de angioplastia com stent, a desobstrução da artéria para retomada do fluxo sanguíneo. Metade dos voluntários recebeu o tratamento padrão, conhecido como dupla antiagregação plaquetária, e a outra parte foi tratada com um antiplaquetário potente.
A conclusão foi de que a retirada da aspirina realmente diminui a possibilidade de sangramentos. “No entanto, essa estratégia não demonstrou benefícios gerais claros em relação ao tratamento convencional quando também foram considerados riscos como infarto, trombose e outros eventos cardiovasculares independentemente da complexidade do procedimento”, concluiu o estudo.
Ou seja, o efeito protetor para problemas cardiovasculares com potencial gravidade para os pacientes não foi mais garantido. Os achados foram publicados na revista científica EuroIntervention e apresentados no congresso congresso mundial de medicina cardiovascular intervencionista, o EuroPCR 2026.
“O estudo nasceu de uma discussão muito relevante da cardiologia contemporânea: como reduzir complicações hemorrágicas sem comprometer a proteção cardiovascular após o infarto. Os resultados mostraram que a retirada precoce da aspirina pode diminuir sangramentos, mas também reforçaram que essa estratégia exige cautela”, diz Pedro Alves Lemos, diretor de Cardiologia do Einstein, autor do estudo inicial.
No fim, fica conclusão de que a decisão sobre manter ou tirar a aspirina não pode ser tomada com base em uma diretriz generalizada para todo o mundo.
“Os resultados reforçam a importância de individualizar as decisões terapêuticas”, afirma um dos autores do novo estudo, o cardiologista intervencionista Guy Fernando de Almeida Prado Junior, também do Einstein.
Por que parar com a aspirina
Há uma tendência de reduzir cada vez mais o tempo de administração da aspirina, remédio conhecido por “afinar o sangue”, com o objetivo de evitar sangramentos que podem, por exemplo, afetar o estômago ou causar hemorragias em eventuais cirurgias ou acidentes.
A meta era descobrir se era seguro seguir com essa nova abordagem não só depois de um infarto, mas da angioplastia com stent, um dado que não era conhecido.
Os pesquisadores constataram que continuar utilizando a aspirina associada ao antiplaquetário é a decisão mais segura por ter um efeito protetor cardiovascular, evitando desfechos mais graves, como infarto, acidente vascular cerebral (AVC) ou necessidade urgente de nova revascularização, em um momento em que os pacientes estão mais frágeis.
A pesquisa foi realizada em parceria com o Ministério da Saúde por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS) e traz diversidade de participantes, fator considerado importante na pesquisa científica por não limitar os achados para populações específicas.